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Espumas de Embriague

Fotografia by Sidclay Dias

"Celebro a mim mesmo e canto a mim mesmo"
(Walt Whitman)
 
Para Octávio Pessoa
(Cavaleiro do mesmo sonho)

I - Mais que submissas galas
são nádegas de óvnis âmbares
− gêneses das frescas hortelãs recém-colhidas −
são corrupções de altares fêmeos
com fragrâncias e urros de lavanda
pós sexo.

No poema: o veludo da palavra
e as abelhas de fino corrimento
tecem tráfegos nas bainhas,
retalham becos de mim
e decifram Fênix.

II - Diante dos recados do vento
corações de quatro ou cinco homens feridos no front
e não satisfeitos com os mofos tácitos das fugas
vergam suas virgindades quase ao chão

― Apesar do cachimbo da aurora
desentupir seus soluços e seus relâmpagos frios,
em caso de empate, haver-se-á por eleito a foice mais idosa
quando atrair para si o cansaço e desnudar o escuro
(o desagravo ao rosário)
teimando em não se livrar deste poema
irreverente e irrequieto

― Apesar dos hímens das espumas de embriague
impor redemoinhos a qualquer banzeiro cru,
suas flores não haverão de ser como um perfume
que sacode o corpo suicida,
e por que não o soluço?

― Apesar do estrume da palavra em oração
impor limites e redefinir suas escamas,
o húmus de qualquer alimento nu
não haverá de ser como o tropeço da alma
que dia a dia protesta contra o que geme,
e por que não contra o silêncio?

― Apesar do relâmpago da palavra elétrica
impor à força estômagos vazios aos mendigos de Belém
haver-se-á o pára-brisa do olfato
de aromar-me com o sabor do medo
para livrar-me das trôpegas bolhas ignorantes,
as que velam o penúltimo verbo que gela,
e por que não os crespos dos cabelos?

III - Com retesada arrogância
roça-se a primavera mocoronga
na palavra que extasia

― Esta ente-dor
em parto de belemita gravidez.

IV - Obedeço aos gozos dos penhascos espetaculosos
que nem sempre testificam
a cascata que falha...

Mas (oh!)
Casar-me-ei com o vazio
ainda que eu veja adiante um palmo,
a fome da expiação.

Mas (oh!)
Sou eu o que inodora a curva.
E ao criar o gume amarelecido
gloria-me-ei nos porosos filamentos da fraqueza,
se assim for a vontade da partida.

Mas (oh!)
Para onde me ausentarei
do meu segredo?
Para onde escaparei
da minha fossa?

Mas (oh!)
Com este grito manco
tento compartilhar meus fenóis
com outras cavalgaduras.

© Benny Franklin
Twitter: BennycFranklin

Voo da Genitália

Fotografia "Hot Water" by Sidclay Dias
(Obra gentilmente autorizada pelo artista para essa postagem)

Em memória de José Saramago

(Parafraseando Antônio de Castro)
A ti, nobre embaixador do intelecto, da orgulhosa teimosia de viver,
da honesta palavra que nem sempre benefícios traz a quem as profere,
 parabéns pela tua vida no momento da tua despedida. Até sempre!

I

Quando a noite
(ao coito) se entrega
o poeta alça seu sagrado masculino ao céu...
Faz-se de morto... Vela o espírito do sexo...
Cria poeticamente o sândalo...
Vê que seu poema agudo intermitente
(porque cãibra precoce e alienígena)
ejacula desmedidamente gotinha de silêncio
sobre o cálido broto do cálculo:
Torna-se gosma solitária da multiplicação
dos pães ateístas - E o é!
-  Mas estando a par da símile brochura
poupa-se do cru,
penteia a franja do vento
e se entrega de vez à sórdida nudez
do orvalho.

II

Oh, vida minha!
Tu és igual ao enigma do inseto.
Por ti arde no escuro
o voo da genitália masturbada,
e a quilha copulada do segredo
invade os cornos poéticos
dos fracos...

Oh! Sê, para mim, o amanhecer gorduroso...

Com flores à porfia
corro do acocho que alimenta
o poderio das agruras reconvexas,
todavia eu sei me juntar
ao sabor de reconheçer-te imêmore
qual o mormaço que cerceia
o abraço.

III

Quando o dia
(ao poeta se entrega) cala a poesia
- morna e sem fôlego -
Cios e gritos revelam-se fotografias carnívoras
cujo album não resulta nem tão cult
nem tão objeto quase
quanto o estigma do belo
(que estufa o peito em aspiral)
afinado pela cobiça de amar
o lugar-comum da irmã-lágrima,
o códice do fim-tempo,
o aplauso da pá-lavra...
Oh! Nenhuma poética seria tão beat
nem tão insana
quanto aquela que no-la faria
acossar o prepúcio do medo,
o acinte da verve.

IV

Pensar, poema, no teu despir,
despe-se o coração,
o gozo da palavra - o medo e a não-poesia:
essa abdução cruel da fome
à baila do ato
de impelir-me à boca
outras soberbas gramáticas sadomasoquistas
(as mais palatáveis...)
sobretudo as que não prosperem
em circulo.

V

Despe-se. Despe-se
a ferrugem da idade - a audácia e o torpor que se contorce:
A locução adverbial da fala
quando atravessa corpos
como faca aguçada...
Cio que fode o texto...
Elegia quando alanceia o instante...
Nojo do erro do acrobata em cacho...
Elo lustrante do cigarro que ilude...
Vulva de clímax masturbada
- Essa ave sem palavra que margeia a lança -
que ama o sândalo qual machado
que bafora seus primeiros respingos
de borra e lanternagem
ao amanhecer do primeiro escarro.

VI

Devasso:

O célere cervo
imita o glúteo ermitão da palavra;
é o nervo-álibi do coito imponderável;
o ato-falho da cópula no sacrifício.

VII

Revelação:

(Nada a temer...)

O que vos nunca cuidei a dizer com tanta seiva,
vo-lo direi, porque me vejo
já por fugir do silêncio
- Esse ódio que corta tal como o boquiabrir da língua;
o asno-estorno do cadafalso;
a afta-falação da partida;
a contramão do mano orgasmo;
o fim do fim.

© Benny Franklin

BENNY FRANKLIN

Poesias Verdes Fritas

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