quinta-feira, 22 de outubro de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Palavras à Beça!

(À Memória de Aníbal Beça)
I
Concreto
o poema
após-manufaturado
age
como escápulas baldias
inteiramente arvoreadas.
II
Absortas
raízes voltam a crescer no homem-palavra.
(É dificílimo negá-las uma porção de poesia
quando elas afrontam o dia
com suas vaginas de fome...)
Por elas
a lâmina combóia o que lhe passa
ao perto e ao longe
e sua seiva saliva no esgoto
o que lhe move e entedia
e se manifesta como verrugas em couve-flor
e se devassa como gritos
que são entretidos e enforcados
e seu alimento fermenta o que lhe caçoa e amarga
e seu verbo remove o que lhe masturba e malfaz
e seu negrume conturba o que lhe arma e vela
– ai! –, amamenta a margenta cor,
pisa-lhe a cerviz.
III
Subfalação
somos
andaço de infelicidade na face dos homens
sujeitos a uma vida que não desmerecem
sujeitos a um nu de pluma de irado fugitivo
que ora submorre
– ai! – somos lentas marchas
que alcançam
a grade das enodoadas partidas.
IV
Oh, madrugada!
Cada outono de orgasmo
tem seu próprio escopo,
que nos entorna sobre o vago e segreda:
amanhece, amanhece!
©Benny Franklin
Nota: Escrito e postado no Overmundo dia 23/08/2009 antes de o poeta falecer, fato ocorrido às 6:30 de hoje (25/08/2009), na cidade de Manaus.
Fotografia (Incertos destinos)
gentilmente cedida pela fotógrafa paraense "Ana Mokarzel".
domingo, 9 de agosto de 2009
Mar Morto

I
Mar morto!
Excrementos que bóiam
por cima de restos de óleo diesel.
Há laços conjugais
que renascem por entre ventos quadrantes
e rumam até o artefato sexual da algema
- e já é inverno nos corações amotinados...
Porquanto as paisagens são como ondas deste mar
sobrepondo as minhas mãos em tuas mãos,
entrelaçadas como se fôssem
bonecas de anil
desabrochadas em meio
a cumeeira do sexo sem palavras.
II
Oh, paixão!
Quando beberdes do meu sangue
(languidez adulterada da aurora),
e quando desejardes ter o meu suspiro
(logro flagelado do orvalho)
que eu pudesse afastar-te ao procurar-me
por entre as vaginas das idades solteiras,
saber-me-ia a fruta já trincada
- e será já negrume nos corações abobalhados?
Ou será já um tímido luar a cobrir-me
de ventos espermosos?
Ou será já um último adeus
desta manhã
aqui prostrada à espreita do luar
- proteger os maremotos, será já uma loucura?
Ou será já uma foda lerda
esnobando
a sexualidade da juventude transviada
para que não ocorra novamente
o esvair das fimbrias
dos esgotos recorrentes?
III
Ai, que Madrugada!
Que vuelvan las ventanas da paixão retalhada:
- feitas de tempo para chegar e tempo para acabar;
- feitas de flores que não se põem de quatro,
no entanto, semi-enterradas,
deixam-se penetrar pelos olhares imperceptíveis
gerado pelo poeta-mor que só sai do tempo
quando penetra os dias possíveis
que jazem no atilamento
das palavras impossíveis.
© Benny Franklin
Fotografia: Flickr/Creative Commons.
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